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Antonio Veronese- artigos em português 2

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http://www.mst.org.br/node/4216

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http://www.lusotopie.sciencespobordeaux.fr/veronese.pdf

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http://www.art11.com/magazine/actu/2010/07/28/

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 Chico Buarque e Antonio Veronese

Chico Buarque  e Antonio Veronese- ao fundo painel de Veronese desaparecido da TVE em 1996

Leonardo Boff, JC Portinari, Antonio Veronese e o besouro rola-bosta

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 (*)Publicado originalmente no blog de Leonardo Boff

A Imprensa Tupiniquin 

Crítica mesquinha, que pune o talento, essa ousadia imperdoável de alçar os cornos acima da manada. No Brasil, talento, como em nenhum outro país do mundo, é indigerível por parte da imprensa que se acocora devorada por inveja intestina. Capitania hereditária de raivosos bufões que já classificou a voz de Pavarotti de ruído de pia entupida; a música de Tom Jobim de americanizada; João Gilberto de desafinado e Cândido Portinari de copista…Quando morre um homem de talento, como agora o grande Oscar Niemeyer, os raivosos bufões babam diante do espelho matinal ávidos de escárnio.

Não questiono liberdade da imprensa. Mas a pergunta que se impõe é como é possível que um homem com a dimensão internacional de Oscar Niemeyer, (sua morte foi reverenciada na primeira página de todos os grandes jornais do mundo) possa ser chamado, por um jornalista mequetrefe, num órgão de imprensa de cobertura nacional, de metade-gênio-metade idiota? Isso após sua morte, quando não mais capaz de defender-se, e ainda que sob a desculpa covarde de reproduzir citação de terceiros…
O consolo que me resta é que a História desinteressa-se desses espasmos da estupidez. Quem se lembra hoje dos que criticaram a bossa nova ou Villa-Lobos? Ao talento, no entanto, está reservada a reverência da eternidade.

Antonio Veronese

(*) Publicaçao original no blog de Leonardo Boff.

Com a morte de Oscar Niemeyer aos 104 anos de idade ouviram-se vozes do mundo inteiro cheias de admiração, respeito e reverência face a sua obra genial, absolutamente inovadora e inspiradora de novas formas de leveza, simplicidade e elegância na arquitetura. Oscar Niemeyer foi e é uma pessoa que o Brasil e a humanidade podem se orgulhar.

E o fazemos por duas razões principais: a primeira, porque Oscar humildemente nunca considerou a arquitetura a coisa principal da vida; ela pertence ao campo da fantasia, da invenção e do lúdico. Para ele era um jogo das formas, jogado com a seriedade com que as crianças jogam.

A segunda, para Oscar, o principal era a vida. Ela é apenas um sopro, passageira e contraditória. Feliz para alguns mas para as grandes maiorias cruel e sem piedade. Por isso, a vida impõe uma tarefa que ele assumiu com coragem e com sérios riscos pessoais: a da transformação. E para transformar a vida e torná-la menos perversa, dizia, devemos nos dar as mãos, sermos solidários uns para com os outros, criarmos laços de afeto e de amorosidade entre todos. Numa palavra, nós humanos devemos aprender a nos tratar humanamente, sem considerar as classes, a cor da pele e o nível de sua instrução.

Isso foi que alimentou de sentido e de esperança a vida desse gênio brasileiro. Por aí se entende que escolheu o comunismo como a forma e o caminho para dar corpo a este sonho, pois, o comunismo, em seu ideário generoso, sempre se propôs a transformação social a partir das vítimas e dos mais invisíveis. Oscar Niemeyer foi um fiel militante comunista.

Mas seu comunismo era singular: no meu modo de ver, próximo dos cristãos originários pois era um comunismo ético, humanitário, solidário, doce, jocoso, alegre e leve. Foi fiel a esse sonho a vida inteira, para além de todos os avatares passados pelas várias formas de socialismo e de marxismo.

Na medida em que pudemos observar, a grande maioria da opinião pública mundial, foi unânime na celebração de sua arte e do significado humanista de sua vida. Curiosamente a revista VEJA de domingo, dedica-lhe 10 belas páginas. Outra coisa, porém, é a revista VEJA online de 7 de dezembro com um artigo do blog do jornalista Reinado Azevedo que a revista abriga.

Ele foi a voz destoante e de reles mau gosto. Até agora a VEJA não se distanciou daquele conteúdo, totalmente, contraditório àquele da edição impressa de domingo. Entende-se porque a ideologia de um é a ideologia do outro. Pouco importa que o jornalista Azevedo, de forma confusa, face às críticas vindas de todos os lados, procure se explicar. Ora se identifica com a revista, ora se distancia, mas finalmente seu blog é por ela publicado.

Notoriamente, VEJA se compraz em desfazer as figuras que melhor mostram nossa cultura e que mais penetraram na alma do povo brasileiro. Essa revista parece se envergonhar do Brasil, porque gostaria que ele fosse aquilo que não é e não quer ser: um xerox distorcido da cultura norte-americana. Ela dá a impressão de não amar os brasileiros, ao contrário expõe ao ridículo o que eles são e o que criam. Já o titulo da matéria referente a Oscar Niemeyer da autoria de Azevedo, revela seu caráter viciado e malevolente: ”Para instruir a canalha ignorante. O gênio e o idiota em imagens”. Seu texto piora mais ainda quando, se esforça, titubeante, em responder às críticas em seu blog do dia 8/12 também na VEJA online com um título que revela seu caráter despectivo e anti-democrático:”Metade gênio e metade idiota- Niemeyer na capa da VEJA com todas as honras! O que o bloco dos Sujos diz agora?” Sujo é ele que quer contaminar os outros com a própria sujeira de uma matéria tendenciosa e injusta.

O que se quer insinuar com os tipos de formulação usados? Que brasileiro não pode ser gênio; os gênios estão lá fora; se for gênio, porque lá fora assim o reconhecem, é apenas em sua terceira parte e, se melhor analisarmos, apenas numa quarta parte. Vamos e venhamos: Quem diz ser Oscar Niemeyer um idiota apenas revela que ele mesmo é um idiota consumado. Seguramente Azevedo está inscrito no número bem definido por Albert Einstein: ”conheço dois infinitos: o infinito do universo e o infinito dos idiotas; do primeiro tenho dúvidas, do segundo certeza”. O articulista nos deu a certeza que ele e a revista que o abriga possuem um lugar de honra no altar da idiotice.

O que não tolera em Oscar Niemeyer que, sendo comunista, se mostra solidário, compassivo com os que sofrem, que celebra a vida, exalta a amizade e glorifica o amor. Tais valores não cabem na ideologia capitalista de mercado, defendida por VEJA e seu albergado, que só sabe de concorrência, de “greed is good”(cobiça é coisa boa), de acumulação à custa da exploração ou da especulação, da falta de solidariedade e de justiça em nível internacional.

Mas não nos causa surpresa; a revista assim fez com Paulo Freire, Cândido Portinari, Lula, Dom Helder Câmara, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, frei Betto, João Pedro Stédile, comigo mesmo e com tantos outros. Ela é um monumento à razão cínica. Segue desavergonhadamente a lógica hegeliana do senhor e do servo; internalizou o senhor que está lá no Norte opulento e o serve como servo submisso, condenado a viver na periferia. Por isso tanto a revista quanto o articulista revelam um completo descompromisso com a verdade daqui, da cultura brasileira.

A figura que me ocorre deste articulista e da revista semanal, em versão online, é a do escaravelho, popularmente chamado de rola-bosta. O escaravelho é um besouro que vive dos excrementos de animais herbívoros, fazendo rolinhos deles com os quais, em sua toca, se alimenta. Pois algo semelhante fez o blog de Azevedo na VEJA online: foi buscar excrementos de 60 e 70 anos atrás, deslocou-os de seu contexto (ela é hábil neste método) e lançou-os contra Oscar Niemeyer. Ela o faz com naturalidade e prazer, pois, é o meio no qual vive e se realimenta continuamente. Nada de surpreendente, portanto.

Paro por aqui. Mas quero apenas registrar minha indignação contra esta revista, em versão online, travestida de escaravelho por ter cometido um crime lesa-fama. Reproduzo igualmente dois testemunhos indignados de duas pessoas respeitáveis: Antonio Veronese, artista plástico vivendo em Paris e João Cândido Portinari, filho do genial pintor Cândido Portinari, cujas telas grandiosas estão na entrada do edifício da ONU em Nova York e cuja imagem foi desfigurada e deturpada, repetidas vezes, pela revista-escaravelho.

Oscar Niemeyer e a imprensa tupiniquim- Antonio Veronese

Crítica mesquinha, que pune o talento, essa ousadia imperdoável de alçar os cornos acima da manada.

No Brasil, talento, como em nenhum outro país do mundo, é indigerível por parte da imprensa que se acocora devorada por inveja intestina. Capitania hereditária de raivosos bufões que já classificou a voz de Pavarotti de ruído de pia entupida; a música de Tom Jobim de americanizada; João Gilberto de desafinado e Cândido Portinari de copista…Quando morre um homem de talento, como agora o grande Oscar Niemeyer, os raivosos bufões babam diante do espelho matinal ávidos de escárnio.

Não questiono a liberdade da imprensa. Mas a pergunta que se impõe é como é possível que um talento, com a dimensão internacional de Oscar Niemeyer, (sua morte foi reverenciada na primeira página de todos os grandes jornais do mundo) possa ser chamado, por um jornalista mequetrefe, num órgão de imprensa de cobertura nacional, de metade-gênio-metade idiota? Isso após sua morte, quando não mais capaz de defender-se, e ainda que sob a desculpa covarde de reproduzir citação de terceiros…
O consolo que me resta é que a História desinteressa-se desses espasmos da estupidez. Quem se lembra hoje dos que críticaram a bossa nova  ou Villa-Lobos? Ao talento, no entanto, está reservada a reverência da eternidade.

Antonio Veronese  

Meu caro Antonio,
Que beleza o seu texto, um verdadeiro bálsamo para os que ainda acreditam no mundo de amanhã nascendo do espírito, da fé e do caráter dos homens de hoje!

Não é toda a imprensa, felizmente. Há também muita dignidade e valor na mídia brasileira. Mas não devemos nos surpreender com a revista semanal. Em termos de vileza, ela sempre consegue se superar. Ela terá, mais cedo ou mais tarde, o destino de todas as iniquidades: a vala comum do lixo, onde nem a história se dará o trabalho de julgá-la.

Os arquivos do Projeto Portinari guardam um sem número de artigos desta rancorosa revista, assim como de outras da mesma editora, sobre meu pai, Cândido Portinari e outros seus companheiros de geração. Sempre pérfidos, infames e covardes, como este que vem agora tentar apequenar um grande homem que para sempre enaltecerá a nossa terra e o nosso povo.

Caro amigo, é impossível ficar calado, diante de tanta indignidade.

Com o carinho e a admiração do
Professor João Cândido Portinari

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Rio de Janeiro, Patrimônio da Humanidade

O Rio de Janeiro foi classificado pela UNESCO como patrimônio da humanidade! Estamos todos, evidentemente, muito orgulhosos! A parte que Deus fez,  como já dizia Tom Jobim, continua maravilhosa. Mas, no que compete aos homens fazer, sob todos os parâmetros que mesurem civilização e civilidade, o Rio vai mal, muito mal!

Comparado, por exemplo, a Curitiba, tão esquecida das filigranas da natureza, o Rio é hoje uma cidade embrutecida, incapaz de assegurar os direitos básicos do cidadão, irresponsavel na preservação de seus recursos naturais, acovardada no ríctus da sua cidadania, e infensa às modernas conquistas do urbanismo.  Confirmam e refletem a crueza desta leitura o pauperismo dos números censitarios do turismo carioca, quando comparados aos de outras cidades desprovidas de sua exuberância natural.

O Rio padece de um endemismo cujo vetor parasitário tem  três patas: a apatia do povo, a pusilanimidade da imprensa e o anacronismo das elites. Entre seus desvarios ressalto apenas dois, cometidos recentemente sob o olhar inerme dos cariocas: a imoralidade dos valores investidos na « reforma » do Maracanã -largamente suficientes pra dar aos hospitais públicos uma pátina de primeiro mundo-, e a absurdidade de versar 500 mil reais na difusão da sub-cultura-metastasica do funk, que seriam melhor empregados, por exemplo, no socorro à escola publica.

É por tudo isso que, ainda que orgulhoso, temo que a prestigiosa classificação da Unesco seja apenas uma veleidade a mais neste nosso macunaímico paraíso de exuberâncias e desvarios.

antonio veronese

( a irregularidade na acentuação deve-se às limitações impostas pelo teclado francês)

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Amanda e Mauro – O Globo

Segunda-feira, cinco e trinta da manhã. No barraco encarrapitado no alto da Rocinha, Mauro, dezesseis anos, corpo tísico de doze, toma uma xícara de café com leite aguado e mastiga às pressas uma “fetta” de pão lambido de manteiga. Bermuda, camiseta, par de tênis surrado, meias rasgadas nos calcanhares, e o olhar perdido no facho de luz que, como um laser, escapa da janela e corta a escuridão do quarto onde a mãe ainda dorme.

Cenário dois: um outro barraco equilibrado na meia-laje não muito longe dali, onde Amanda veste com dificuldade o vestidinho de viscose surrado… Ela está muito acima do peso. “Sabia,moço, que depressão também engorda?”
Há um mês, no dia em que fazia treze anos, Amanda perdeu a mãe subitamente: infarto fulminante. O enterro foi numa segunda-feira chuvosa, bem cedinho. No mesmo dia, depois do almoço, Amanda já estava de volta ao batente: “compra um chiclete aí, moço compra” ?

Onibus das quinze pras seis da manhã. Que sufoco! Um real só pra atravessar o túnel, enquanto o dia começa a clarear preso no congestionamento. Seis da manha, Mauro assume seu posto próximo às figueiras do canal da Visconde de Albuquerque. Estica um olhar pro outro lado da pista expressa e faz um breve aceno. Amanda, rosto compenetrado, responde de longe, sem interromper o trabalho: “Compra ai’ moço, compra pra
me ajudar” insiste a pequenina através da janela de vidro fechada do automóvel.

O dia esquenta e a manhã se arrasta como a fila de veículos travados na mormaça… E a pratinha, graças a Deus, começa a pingar devagarinho… um real aqui, uma moeda ali…

Oito da manhã, duas horas de batente. Amanda já fez, tirando o « custo », um real e vinte . Mauro, mais ligeiro na cobertura de sua área, ja’ tem 2,40. O dia promete!

“O que atrapalha muito é o insulfilm” do vidro, reclama o menino. A gente não consegue mais ver a cara do motorista e, sem ver a cara do freguês, fica difícil começar a conversa, entabular a negociação. É triste, continua ele, encarar um vidro escuro onde tudo que vejo é a minha própria cara refletida. Nem sei direito com quem estou falando, se é homem ou mulher… Dia desses, continua ele, eu tava apurado, precisando de uma grana extra pra comprar um remédio pra minha mãe. Tava chovendo e com chuva a coisa se complica… Ninguém abre o vidro mesmo! Eu precisava de mais 2 reais de qualquer jeito para completar o preço do remédio, e nada. Quando a noite foi chegando e a agonia apertando, eu dei umas batidinhas no vidro de um carro pra ver se o cara baixava o vidro, se pelo menos falava comigo. Baixou sim, só que uma pistola na mão que botou bem na minha cara: “se arranca, vagabundo, senão te queimo”. Corri feito um louco e, mesmo depois do carro ter ido embora, meu coração ainda estava disparado, querendo sair boca afora. Amanda, que de longe viu a cena, foi se achegando de mansinho e sentou-se ao lado, acarinhando seu cabelo: Calma, Mauro, o homem já foi embora, cagão! Aí comecei a chorar, mas não foi um choro de medo. Foi um choro de raiva, de revolta mesmo, misturado com uma tristeza que ia apertando o coração. Acho que foi porque ali, naquele dia, que eu aprendi de vez que eu era mesmo um bosta, um Zé-ninguém, e que não adiantava nem ir reclamar pro guarda”.

Onze da manhã, cinco horas de trabalho. Trinta e seis graus no termômetro digital. Amanda está com uma fome dos infernos, sem contar o arrependimento porque teimou em colocar aquela sandalhinha branca de que tanto gosta, mas que não lhe serve mais. Os pés estão para explodir depois de cinco horas sem sentar, e a quentura do asfalto atravessa as finas tiras de couro da sola.
Conta o dinheiro devagar: três e setenta, quatro, quatro e cinqüenta, quatro e sessenta… quatro reais e oitenta centavos! Mauro, no entanto, está num dia ruim; empacou nos quatro reais depois de um novo susto: um carro prateado acelerou com tudo pra cima dele quando o sinal abriu. Precisou dar um pulo de acrobata, senão…

Amanda faz sinal de longe como a dizer “vamos comer” ? Mauro finge que não vê e nem responde. Está tão injuriado com o cara do carro prateado que até perdeu a fome. E o pior é que a essa hora já era pra ter feito uns seis reais , resmunga.

Onze e quinze da manha quente… Amanda larga o posto e vai sozinha até a padaria. Além da fome está louca pra fazer xixi. Compra um pão doce e uma coca-cola. Um real e oitenta centavos. A massa gordurosa do pão e o gás carbônico do refrigerante dão-lhe uma sensação de saciedade gostosa, de barriguinha cheia. Depois de “almoçar” vai ao banheiro e à saída encosta-se num canto da padaria movimentada, tomada de assalto por um grupo de alunos da PUC. Gente bonita, faladeira…”As meninas têm cada roupa de moda!!”, fala consigo mesma. Acha linda uma blusinha vermelha de uma delas. “Um sonho”! Depois conforma-se: “Não é pra mim, gorda que nem uma baleia”!

Amanda vai longe em seus devaneios quando o português dá-lhe um tranco, trazendo-a de volta à realidade: “Se quer mais alguma coisa desembucha, do contrário se manda que aqui não é estacionamento”.

Recolocada na rua Amanda se lembra do trabalho. E recrimina-se: parou quase quinze minutos! Volta depressa pro seu posto esticando o olhar em direção ao canal. Será que Mauro já “almoçou”?…Vai um chiclete aí, moço? Compra pra me ajudar…

Treze horas. Tirando os quinze minutos de almoço, já são quase sete horas de trabalho sob o sol de estio. Mauro voltou do seu lanche mas, definitivamente, não está de bom humor hoje. Não responde aos acenos de Amanda. Faz um calor dos infernos e agora mesmo é que ninguém mais abre a janela do carro, por causa do ar condicionado. O « faturamento » vai se arrastando e a morraça da tarde apenas começou. A bermuda sintética de Mauro começa a assar-lhe as partes pudendas e os calcanhares, suados nos rasgos das meias, grudam na sola do tênis como um bife em chapa quente. Bife! , pensa ele, mas depressa desvia o pensamento pra não ficar com fantasias. Almoçou um pastel e um refrigerante: um real e sessenta centavos.

Quanto é o chiclete, moleque, pergunta um rapaz novo, enquanto desce o vidro da janela. “Um é um , três é dois”.

Amanda do outro lado, solitária em meio ao engarrafamento, conversa, enquanto não abre o sinal, com um senhor de boa aparência, terno e gravata impecáveis:

-Onde você mora menina ..
-Na Rocinha, tio…
-Quantos anos você tem?
-Fiz treze no dia em que minha mãe morreu…
-Quer que eu te leve em casa? Pergunta o homem.
-Não senhor que eu tô trabalhando.
-E quanto é que você ganha por dia vendendo esse bagulho aí? —Depende, tio, às vêis é dez, às vêis vareia…

O homem então, esticando o olho pra se assegurar que o guarda de trânsito esta’ distraido, murmura entre dentes:
-Entra aqui menina que eu te levo em casa e ainda te dou os dez reais por fora. Não carece de trabalhar mais hoje.
-Não vou não senhor, diz a menina, minha mãe sempre me dizia pra nao entrar em carro de estranhos”.
-Mas ela nem vai saber, insiste o motorista, enquanto o sinal ameaça abrir.
-Saber ela não vai mesmo, responde Amanda…Minha mãe morreu no dia em que eu fiz 13 anos”…
-Então, entra aqui, propõe mais uma vez o cidadão.
-Entro não senhor. Compra um chiclete ai’, moço…um é um , três é dois…compra só um pra me ajudar… O sinal se abre e o carro arranca, sem mais formalidades.

Quatro e meia da tarde, dez horas e meia de trabalho. Amanda teve uma tontura com o sol e a dieta parca em proteínas. Ia cair, mas buscou forças, chamou por Nossa Senhora, e não caiu… só derrubou a caixa de chicletes. Uma caminhonete arrancou e passou por cima de uma embalagem. Amanda se arrisca para salvar o resto e, por pouco, nao é atropelada. Prejuízo de 2 real. Senta-se na calçada com uma zoeira na cabeça que parece querer explodir. De uns tempos para cá, deu de ter umas manchas na vista e depois vem uma enxaqueca dos infernos. Olha no relógio da esquina: 38 graus. Conta e reconta o capital: nove reais e vinte centavos, tirando o da passagem do ônibus de volta, guardado em separado. Uma senhora estica a mão e dá-lhe um caramelo. Deus lhe pague, tia. Mastiga a bala devagar, fazendo render, a língua enfeitiçada pela doçura do mel.
-Moço, que horas são? Valeu!
Dá um friozinho de felicidade na barriga. Graças a Deus, já tá quase na hora de voltar pra casa!

Dezenove horas. No ponto de ônibus, quase em frente à PUC, encontram se, ao final de mais um dia de trabalho, Amanda e Mauro. Trocam um olhar frio, um sorriso seco.
-Quanto tu fêiz? pergunta a menina.
-Num é da tua conta, responde Mauro E tu, quanto fez?
Arne Quinze real, responde Amanda, fazendo pose.
-Hum, tá de caô, baleia? Que quinze que nada!
Amanda abre um sorriso que ilumina o rosto cansado: fiz 9,80, tirando o almoço. Fiz melhor que tu, vangloria-se Mauro… fiz doze!!

No ônibus lotado vão os dois em pé, lado a lado, num silencio de profunda e triste cumplicidade. Saltam os dois no Boiadeiro, passo apertado, despedindo-se com um breve gesto de mão.

Esta história verdadeira!!, com seu casal de protagonistas e enredos que pouco mudam, repete-se todas as manhãs, há mais de seis anos, no cruzamento da Lagoa-Barra com a Visconde de Albuquerque, na Gávea. Amanda e Mauro estarão lá amanhã bem cedinho, torcendo pra não chover, pra não fazer muito calor, pro sapato não apertar, pra cabeça não doer e, principalmente, pra que a « féria » seja boa.

Um dia perguntei ao Mauro: e se tu ganhasses na loteria, o que querias pra ti? E ele respondeu sem pensar um segundo: “ eu voltava a estudar, tio, porque eu gosto mesmo é de escola! Antonio Veronese
- publicado em O Globo em 1995

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O Arroto de Caetano « Caetano Veloso chama presidente Lula de analfabeto » P1010462-150x150Ninguém pode subestimar o talento de Caetano Veloso. Mas creio que ele deveria respeitar-se falando menos.Sofremos todos com os problemas do Brasil, mas Caetano deveria saber que um presidente legitimamente eleito  merece, pelo menos publicamente, um tratamento diferente daquele reservado a um bate-boca no botequim.Esse tipo de ranzinzice « caetaniana » é rara entre seus pares, talvez porque compreendam estes que, a partir de uma certa notoriedade, não se tem mais direito à polemicazinha macunaimica que não conduz a nada a nao ser chamar a atenção sobre si mesmo. Gilberto Gil, por exemplo, não sofre desses efluxos hormonais, e tem uma sofisticaçao que escapa à pseuda-autenticidade de Caetano.Ressalte-se que Caetano não escolhe adjetivar o chefe da boca de fumo, nem o deputadozinho ladrão…Não!! Ele prefere atirar diretamente no presidente da Republica: primeiro porque é mais tropicalistimente rocambolesco; depois porque muito menos perigoso!, assegurando-lhe, na platitude da imprensa tupiniquim, seus dois ou três dias de “centro das atenções”. Caetano  transvestido no agitador-intelectual-polêmico, ainda que suas fanfarronices, quase sempre, produzam quase nada!Suas criticas mais parecem o arroto de uma elite enfastiada.antonio veronese

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“Feio, não é bonito, o morro existe mas pede prá se acabar”

Gianfrancesco Guarieri e Carlinhos Lyra

É impossível discutir remoção de favelas no Rio de Janeiro sem despertar de pronto o patrulhismo “politicamente correto” dos que defendem os direitos desses guetos contemporâneos. Mas que direitos são esses? Posso falar com alguma experiência pois, em 1992, estive na linha de frente do movimento que removeu a favela do Alto Leblon. Na ocasião a sociedade civil, atuando no hiato da autoridade constituída, mas com inestimável apoio da prefeitura, financiou e executou a remoção de toda uma comunidade precariamente instalada no bosque do Alto Leblon. Contrariando prognósticos dos céticos e ignorando insinuações de detratores de primeira hora, o projeto foi de um êxito completo: duas centenas de pessoas que ali habitavam barracos rústicos e sem direito às decências básicas, deixaram de ter o status de invasores de um próprio público para assumirem a condição de legítimos proprietários do seu imóvel de residência, com direito a água encanada, esgoto, luz elétrica e titularidade firmada em registro público.
A remoção foi feita no interesse Alto Leblon formal, (aquele que paga impostos e que não gosta de ter favela por perto), no interesse da ecologia ( com o replantio de um bosque da Mata Atlântica de luxuriante diversidade que estava sendo destruído) mas , especialmente , no interesse dos próprios moradores da antiga favela que, colocados diante da possibilidade de ganhar uma casa própria, concordaram de pronto em deixar a área invadida. Todos os moradores,sem exceção!! A única reação adversa veio de traficantes instalados no local que, contrariados em seus interesses econômicos, tentaram obstruir a remoção, ora com ameaças, ora recitando a cantilena mesma do “direito da favela de existir”..
Sabe-se que a imensa maioria dos moradores de favelas é gente honesta e trabalhadora, empregada na própria região. Habitam a favela por absoluta falta de alternativa. No entanto, o ingênuo fatalismo que se socorre dessa realidade para defender a preservação! das favelas, (e que conta com apoio de respeitáveis personalidades da sociedade e cultura cariocas!) acabou por desencadear um processo de septicemia do espaço urbano que está destruindo o Rio e, por conseqüência, sua capacidade de seduzir e atrair turismo. Turismo, ressalte-se, que dá emprego e gera impostos que sustentam os investimentos sociais de que são mais carentes, justamente, os moradores de favelas.
A área urbana que interessa ao turismo no Rio é, por conseqüência , um extraordinário patrimônio que pertence a toda a sociedade e cuja preservação, e correta exploração no sentido de maximizar suas potencialidades turísticas, aproveita a todos os cariocas sem exceção. Além disso, a retórica simplista do “direito da favela de existir” favorece à crônica omissão do Estado brasileiro em assegurar a todos um direito que é constitucional, qual seja, o de morar com dignidade! Este sim um valor que deveria ser objeto da defesa intransigente dos patrulheiros de plantão. Quem conhece o interior de uma favela, (eu trabalhei com meninos favelados por 16 anos), sabe o que significa morar ali: falta de saneamento básico, maior incidência de doenças infecto-contagiosas, coleta de lixo inadequada ou inexistente, promiscuidade, dificuldade de acesso para os idosos e as crianças, riscos de desabamentos e catástrofes anunciadas nos períodos das grandes chuvas… Não bastasse esse rosário de penas, há ainda o martírio diário da convivência com a violência entrincheirada do tráfico de drogas , a indigna submissão ao estado paralelo que produz situações como a do último fim de semana, quando uma parturiente teve que dar seu filho à luz no meio da rua, pois o acesso da ambulância foi negado pelo xerife do morro . Nessas comunidades infectadas pelo crime organizado, vivencia-se a tensão crônicamente, o que faz que 61% de suas crianças, de acordo com estudo da Pediatria do Miguel Couto, padeçam de doenças psico-somáticas relacionadas ao medo. Quem conhece as nossas fazendas de produção de leite sabe que hoje, no Brasil, o gado leiteiro vive com mais higiene e facilidades do que os moradores de algumas de nossas favelas, sendo oportuna a citação de Bloch de que “…a massa de pessoas reduzida a gado humano é um dos mais fiáveis indicadores de não-civilização”. As favelas cariocas, esses estados paralelos com jurisdição e soberanias distintas, com exércitos próprios e leis de taliban, são um escárnio à Justiça e uma afronta aos direitos de brasileiros pobres que, da mesma forma que os moradores do asfalto, trabalham e pagam impostos embutidos em cada litro de leite que consomem. Retirá-los desta condição sub-humana deveria ser impositivo ao orçamento público, e a ladainha da falta de recursos mascara, na verdade, a indigência de coragem e de determinação política, anestesiando na sociedade o debate de um tema crucial. Defender a jurisdição civil da favela é contribuir para a perpetuação do paradigma, apontado por Joel Rufino, “da competência das elites brasileiras em manter a dominação…” A mudança dessa mentalidade pode ser o primeiro passo para um novo tempo onde sejam respeitados o patrimônio urbano, a ecologia e, principalmente, o direito constitucional que todos têm de morar com dignidade.

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antonio veronese

14-janvier-09 014

A DUPLA RO-RO

(este artigo foi escrito em 1998)

Na hora sagrada do meu “chopinho-nosso-de-cada-dia” começa, na mesa ao lado no botequim, um bate boca infernal. Motivo da querela: a dupla Ro-Ro na seleção brasileira de futebol… Ronaldinho e Romário, defendem uns, em acirrada discordância com outros…Todos em etílica desarmonia!

No calor da discussão um dos porristas, incomodado com minha serena imparcialidade, vira-se e pergunta de chofre:
-E tu aí, simpatia, és a favor ou contra a dupla Ro-Ro na seleção?

Tomado de surpresa , e tentando ser poupado do embrólio, respondo que não sou nem a favor nem contra, muito pelo contrario!! Em vão…O caraquer-porque-quer saber minha opinião, como se fôra eu reputado estrategista do velho esporte bretão:

-Ô amizade – re-ataqua o troglodita- vais ficar em cima do muro, é?! Desembucha de uma vez, tu és a favor ou contra a dupla RO RO?!

Sem alternativa tento, num derradeiro recurso, encontrar uma saída diplomática que me assegure o direito “constitucional” de beber minha cervejinha em paz. Assim, após breve pausa, e diante do constrangedor silêncio dos hunos da mesa ao lado, respondo pausadamente:

-O problema, meu caro amigo, é que em se tratando de dupla RO-RO a minha é mais antiga que a tua!! A minha dupla Ro-Ro tem mais de sessenta anos, e pertence a um grupo de meninos da zona sul do Rio que resolveu mudar a cara da música popular brasileira, redesenhando a própria identidade de toda uma cidade. Então, marcando o compasso sobre a mesa, começo a cantar baixinho: -”Rio que mora no mar, sorrio pro meu Rio que tem sua mar, lindas flores que nascem morenas em jardins de sal”… Voilà, concluo, uma panfletagem estética definitiva do Rio, com o vanguardismo de Las Señoritas de La Calle Avignon e com a leveza de um móbile de Calder.”

O porrista,  como que confrontado a um novo samba do Criolo Doido, retruca de cara feia:

-Que é isso, cidadão,  tá gozando com a minha cara?

Preocupado com o rumo que toma o nosso “amigável” coloquio, finjo calma e esmero-me na explicação:
-Calma, companheiro, que não é nada pessoal. Muito pelo contrário… o que estou tentando dizer é que eu ando com um banzo danado, saudades de um tempo feliz que ficou pra trás quando o Brasil, na bola e na bossa, ja era o primeiro do mundo.

-Quer fazer o favor de se explicar melhor…retruca meu truculento interlocutor, enquanto sorve de um só golpe mais um bracarensiano na pressão.

-Eu explico, eu explico … é que me dá uma tristeza danada ligar a tv hoje em dia, e ver sempre as mesmas caras, aquela mesma porcaria multifacetada em funk, pagode ou, o que é ainda pior, nessa música neo-caipira de três compassos, romantismo piegas e rimas de infinitivo. O povo gosta!, dizem alguns… Gosta? Gosta nada! Consome porque não tem escolha, porque não tem acesso à cultura, porque não tem elementos de comparação, por que só conhece esse sub-produto que lhe impõe a nossa televisãozinha de merda, de valores vazios e conceitos artificiais…

O porrista então, parecendo serenar-se pela cumulação dos decilitros, arrefece o seu “animus-disputatio” dando-me a chance de prosseguir na temeraria defesa da minha tese:

-Li hoje, continuo, que a dupla Sandy-e-Junior vai gastar cinco milhões de reais  em divulgação. Pois acredito que se usassem essa grana para divulgar Carlos Cachaça e Cartola, estes venderiam mais que a dupla de adolescentes pós-caipira que, para a infelicidade geral da harmonia, confirma o ditado de que “filho de peixe, peixinho é”.

Pior ainda -prossigo eu- é o “esquemão” que se aproveita da omissão do Estado na exigência de contrapartidas estético-culturais de interesse público nas concessões que faz de radio e televisão. Esquemão que fomenta a peita cumplicidade de programas como os de Faustão e Gugú que, com sua idolatria de chinfrins movidos a jabaculê,  acabaram por disseminar a porcariada toda.

- Desligue a tv, pôrra!, propõe-me, mais amistoso apesar do jargão!, o meu « companheiro » de botequim.

-Mas de que adianta?, retruco, se sou perseguido por esse lixo sonoro onde quer que eu vá:no volume desmesurado da televisão do vizinho, no rádio do táxi,  no ” som-ambiente!” do restaurante…

Fez-se  uma pequena pausa, um silêncio no botequim!, em que dedico ao meu de chope esquecido no fragor discussão… O meu interlocutor, desistindo finalmente da inquirição, coloca a mão amistosamente no meu ombro e murmura, entre dentes, o seu axioma de concordância:

-É verdade,… pobre geração Renato Russo!!

Aliviado, aproveito-me da sua efêmera cumplicidade para desfiar minhas mágoas, como se estivesse agora no divã do meu analista:

-Sobrou-me apenas o som do meu automóvel, continuo,  último reduto prá satisfazer à minha  dependência crescente  de Tom, Vinicius, Carlos Lyra, João Gilberto, Donato, Hime, Chico e Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal, esta sim-finalmente revelo- a minha dupla Ro-Ro preferida!!

O bêbado, ja entao cumplice da minha nostalgia, « tamborila »  no copo de chope, cantarolando sem jeito: - O barquinho vai, a tardinha cai…- é, concorda finalmente, ta ai uma dupla Ro-Ro do cacete!

- Uma dupla cheia de bossa, continuo eu, que juntamente com essa  turma da pesada, produziu a mais universal das produções made-in-Pindorama: a Bossa Nova!! Enquanto essa bossa enche teatros no exterior, -continuo diante do meu agora atento ouvinte- continuamos aqui no Brasil ouvindo esse musiquinha burra imposta pelas gravadoras a um mercado cada vez mais burro. Sintomática desta burrice, que perpassa mesmo a elite brasileira, foi a atitude da “seleta » (?) platéia do Prêmio Multi-Show no Teatro Municipal, que se pôs em debandada assim que Bebel Gilberto iniciou sua apresentação.

Fez-se uma longa pausa em que o borracho, olhar distante e cerrado cenho, pareceu esquecer-se até do copo chope.

-Vamos mudar de assunto, proponho-lhe, satisfeito com seu silêncio reflexivo. Não se deixe contagiar por minha nostalgia… talvez seja apenas saudade d’um tempo feliz que ficou pra trás…Tristeza por um país que, tão craque na bola como na música, insiste em chafurdar na mediocridade. Ah, e por falar nisso, concluo finalmente, concordo  também com a tua dupla Ro-Ro na seleção brasileira!
O bêbado, finalmente, desfraldou no rosto um  sorriso desarmado, e seguimos bebendo solidários noite afora, assaltados da esperança de que, na bola e na bossa, o Brasil volte a ser como há quarenta anos atrás, quando já estávamos cem anos à frente de hoje em dia.

antonio veronese, 1998

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www.antonioveronese.over-blog.com

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Cheese, Ham an Egg Antonio Veronese-

O Globo, 20/05/01

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Fico observando a discussão sobre a Lei Aldo Rebelo, e sua repercussao. Ela é acusada de anacronia, de xenofobia, e de outras ‘ias’ mais. No entanto, chega uma hora em que a questão da identidade impõe-se; afinal de contas, a língua é a própria pátria! Disto bem sabe a França que, há décadas, legisla em defesa do francês e da francofonia. No Brasil a anglicização galopante do português perverte e desnatura a mais bela das línguas latinas (e perdoem aqui a jactância luso-brasileira). Decreta ainda, por desuso e ignorância, a morte de palavras belíssimas como, por exemplo, ‘cancioneiro’, substituída, infelizmente, pelo malfadado ’song-book’ como já reclamara o mestre Antonio Callado. Chega a ser engraçado que uma compilação da obra africano-carioquissima de Cartola, seja chamada de song-book pelos próprios brasileiros, como aponta Marcos de Castro no recomendavel livro ‘O caos na ortografia’. Os portugueses, com certeza, não cometeriam tamanha impropriedade. Mas, fazendo cá comigo essas ilações, acabei testemunhando algo que bem ilustra a questão. Dia desses, entrei numa dessas lanchonetes de Copacabana com pomposos nomes em inglês na fachada. Queria comer alguma coisa leve e minha opção estava lá no painel assim descrita: Cheese, Ham and Egg.Chamei o garoto que estava servindo e, fiel à última flor do Lácio, pedi: ‘ô rapaz, me vê aí um Queijo, Presunto e Ovo! O menino reagiu como se eu em sânscrito falasse. Diante de sua perplexidade,  insisti eu na boa língua de Saramago:  olha, eu filho, eu quero  um Queijo, Presunto e Ovo, certo? Fez-se uma pausa desconfortável…o rapaz, na tentativa de assumir o controle da situação, sentenciou: olha moço, aqui  só tem o que está escrito ali, ó… – apontando num gento largo  o imenso cardápio afixado à parede, que mais parecia um manuscrito shakespeariano que uma lista de guloseimas. Eu, sem ceder ao braço-de-ferro, insistia no  meu bom portuguesinho:  » exatamente, meu filho, e é mesmo por estar ali no cardápio que estou pedindo: quero um Queijo, Presunto e Ovo! Em vão! Uma senhora do meu lado, atrasada pelo tempo que eu tomava ao rapaz, lançou-me um olhar furibundo, colocando em perigo a minha cruzada filológica:   »ô muleque, o que ele quer, é um Cheese, Ham and Egg!!’, e repetiu, enfatizando cada sílaba, num inglês digno de Connecticut: Cheese,Ham and Egg, pôrra! Severino então, estampou no simpatico rosto nortista um sorriso aliviado: ‘Ah, entendi, doutor… É pra já! E em voz alta comandou sem mais delongas ao cozinheiro no fundo do corredor: Tião, salta ligeirinho um Cheese, Ham and Egg aqui prô my brother!!!!’

Antonio Veronese

A Liturgia da Cidadania – Jornal do Brasil

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É estratégia do governo isolar o MST , e para isso questiona sua legalidade e legitimidade em decorrência das ações adotadas pelo movimento nas últimas semanas. Recorre ao que George Orwell chamou de “doublespeak”, a tentativa de impor à sociiedade a verdade do poder,independentemente da verdade dos fatos. Infelizmente grande parcela da imprensa se deixou levar pela esperteza do Planalto e, como conseqüência,cresceram nas páginas as críticas ao MST.
Questionar a legalidade é a ante-sala do recrudescimento da repressão, seja pelo aparelho estatal, seja pelas milícias privadas.Com isso FHC abdica de sua função moderadora, ensaia um discurso autoritário, e deixa escapar o papel que a História lhe havia reservado. Servem a essa estratégia as acusações de que o MST quer transformar-se em partido político e adotar o exercício político stritu-senso, como se não fosse esse um direito de todos os segmentos da sociedade. Acusam-no também de desviar-se do seu caminho original, cometendo ações urbanas atentatórias ao patrimônio e à segurança públicos. Num país como o nosso, onde é crônico o desrespeito aos direitos humanos e o genocídio de menores e a fome são manchetes cotidianas, impõe-se à sociedade a busca da justiça , alencando-se entre suas legítimas prerrogativas, in-stremis, a desobediência civil.

E isso está claro para MST , pois o governo só cede e é diligente nas regiões em que o movimento adota estratégias mais contundentes. O MST tenta com isso levar, além dos limites da geografia agrária, os horizontes da luta que se propôs. Justificam essa estratégia a fundada descrença nos mecanismos constitucionais disponíveis, e a insensível atuação de FHC, que frustra, enquanto chefe de Estado, as expectativas que em torno dele existiam. Nos últimos quatro anos aumentaram a tensão e o confrontamento, e são inocentes as avaliações de que essa questão possa ser resolvida pela força. Para peãozada do MST a fome e a exclusão são ameaças muito mais concretas que os cassetetes da polícia ou as armas dos jagunços a serviço do latifúndio. Para essa imensa parcela de brasileiros “Sem-Esperanças” , o MST é um canto de sereias irresistível, e é difícil abrir mão da utopia dos seus acampamentos , onde se ensaia um micro-Estado mais justo, para retornar à dura realidade do Brasil contemporâneo. A própria dinâmica do processo não vislumbra o recuo dessa marcha autorizada por inquestionável lastro moral. São milhões de brasileiros sem um palmo de terra para plantar, enquanto do outro lado da cerca o mato cresce sem pressa de crescer, num país onde 1% dos habitantes possúe 46% das terras produtivas.
O MST, mais que a reforma agrária, propõe ao país uma reflexão sobre a anacronía de uma sociedade cuja lógica é a excludência de um terço de seus habitantes, portanto, uma sociedade de extrema perversidade. Provoca-nos também a exercer nosso ” devoir d’insolence”, instigando o renascimento entre nós da liturgia da cidadania.
Por tudo isso, o MST é mais relevante do que insinuam seus precipitados detratores.
O tempo, certamente, irá conferir-lhe sua real dimensão histórica.Graças à sua atuação e ousadia, temos hoje 5 milhões de brasileiros assentados, em área que excede às da Holanda e Bélgica somadas. Isso tudo sem dar tiro, ainda que tenha oferecido 1.600 vítimas fatais à sanha de seus algozes. O presidente a República e parte da imprensa, ao cobrarem do MST que se mantenha dentro dos parâmetros da lei, parecem esquecer-se que o” estado de necessidade” reescreve os normativos da lei, a eles modifica e, por fim, a eles se sobrepõe quando não resta outra alternativa à fome e ao desespero. A paz no campo não será obtida pela força da lei, mas pela serenidade da justiça.
antonio veronese

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 O Ataque a Leila Schuster-O GLOBO

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O ataque que sofreu a senhora Leila Schuster à saída do Fashion Rio é a dramaturgia perfeita do drama carioca. Por obra do acaso cruzaram-se, em uma esquina do Rio, o glamour inacessível de uma elite de privilegiados com a barbárie nossa de cada dia. Infelizmente, mais uma vez, a tragédia dessa conflagrada convivência não será suficiente para romper os grilhões da nossa passividade.

Dia desses ouvi de uma “socialite” a afirmação de que tinha um carro blindado e que, portanto, não se sentia incomodada com a violência carioca. Uma semana depois, outra senhora da nossa sociedade, cometendo a imprudência de abrir a janela para fumar, foi brutalmente assassinada no Leblon, ainda que também tivesse um automóvel blindado.

Há dois dias uma nota de grande arrogância de uma das nossas colunas “sociais”, dava conta que a  senhora Schuster acabara de construir em sua casa um deck de 400 metros que “… mais parecia coisa de outro mundo!”…

A alienação das elites brasileiras é uma endemía, e resulta dela a espiral septicêmica da violência que nos envergonha diante do mundo civilizado. O ataque covarde à senhora Schuster colocou-a, por um instante de terror, no “front” dessas duas realidades tão distintas, mas indissociáveis. Amanhã os jornais já terão dela se esquecido. Outras vítimas ” mais frescas” vão assegurar-lhes o repasto diário de sensacionalismo. E nada, rigorosamente nada!, será proposto por essa elite intoxicada de superficialismos e obsecada por vãs notoriedades. O Rio de hoje é um espectro do que foi um dia, terra de cultura e poesia, centro do pensamento nacional.

Antonio Veronese- O Globo-19 de janeiro de 2007

Na Corda Bamba- JORNAL DO BRASIL (JB 2002)

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De repente, como num passe de mágica, meninos de rua do Rio transformam-se em verdadeiros artistas de circo! Não mais lavam compulsoriamente nosso parabrizas mas, inesperadamente, oferecem um número de malabarismo. Não pedem  um real como esmola, a troco de nada, mas como um “couvert artístico” por essa fração de magia, um momento de inesperada fantasia circense na rotina sem graça do trânsito.
É certo que rua não é o melhor lugar pra estar uma criança…No entanto, nas circunstâncias em que vivemos, é inegável que compensar esses meninos com uma moedinha significa propor-lhes um admirável-mundo-novoonde, para ganhar dinheiro, é preciso dar alguma coisa em troca, em suma, merecer!!, e não somente estender a mão e pedir, como faz uma pessoa doente ou incapaz.

Numa hora em que a ciência vislumbra a possibilidade da clonagem de seres humanos, o que realmente me emociona é a constatação de que cada um desses meninos é peça-única, indivisível e inimitável como um óleo de Da Vince. E que, mais do que produzir em série geniozinhos de olhos azuis, o que me fascina é o desafio que temos de transformar o destino desses pequeninos artistas  de Deus aue, mesmo órfãos de sonhos e de fantasia, acabaram por transformar a cidade num grande circo a céu aberto. Literalmente, no maior espetáculo da Terra!

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Os Quatro Pirralhos- O Globo 2002

  DSCF9736.JPGCom a cineasta Flavia Orlando

 

 
São quatro pirralhos em louca correria sob a chuva fina da Lagoa-Barra. Quatro brasileirinhos cascas-grossas, filhinhos-de-Deus e da-puta, num ziguezague infernal na roleta russa dos carros em movimento:

-Pega, pega…

O que vem na frente, o mais graudão dos quatro, tendo já assegurado o produto do roubo nas profundezas cárneas da cueca, estampa no rosto uma ‘overdose’ de adrenalina; olhos que saltam das fossas faciais, como caricaturesca Beth Daves em agonia.

Logo atrás, voando baixo, vem um mais escurinho cobrindo a retaguarda: bichinho miúdo, cabeça lisa e canela fina, dentes de alemão apesar da infância de pouco leite, cabeça girando num frenesi que faz  saltar os tendões do pescoço como um beque-central no sufoco da pequena área.

Ainda mais atrás, retardados na louca carreira, vêm dois mais minguadinhos, ’physic-du-rôle du miserê”,  destrambelhamento de rês-desgarrada,  pés descalços no malabarismo do asfalto molhado tentando – no limite dos pulmões- acompanhar os proeiros na cavalgada infernal…

-Pega, pega os filhos da puta! –grita o cidadão engravatado arfando pelas ventas, carro abandonado pra engrossar o corso ensandecido dos perseguidores.

-Peega!- repete em coro a multidão, extasiada com o circo-de-horrores que se instala e quebra a rotina sem graça da tarde domingueira.

Lá embaixo, alertado pelo banzeiro, um guarda de trânsito  saca enorme cacete e prepara o cerco. A platéia congela em surda expectativa…O maior dos quatro, ignorando a autoridade constituída, mantém aceleração e curso inalterados até que, na iminência do bote final, já nas ventas do parrudo, da’ um salto de acrobata e, desdenhando a lei da  gravidade como um personagem de Chagal,  voa por cima dos carros retidos no  sinal, desaparecendo  sem deixar vestígios na dobra da esquina do canal.

-Esse já era!!-, vaticina o apontador do bicho, sem conter o sorriso de satisfação.

O segundo neguinho, o que vem na cobertura, fiando-se na rota traçada pelo proeiro, acaba caindo na mesma armadilha: o estreito  matadouro entre os ônibus e o paredão.

-Esse não escapa!! -grita a multidão, babando seu sadismo- mas o moleque, que traz nos calcanhares, em fúria, o motorista “ desapropriado” de sua carteira, não desacelera o curso suicida, parecendo desdenhar as agruras do destino.

-Pega, pega esse, porra!- , grita a grã-fina do carro importado, enebriada histeria. Pega!!, repete a “matilha” de marmanjos vitaminados que, sorvendo seu coquetel de adrenalinas, encena uma verdadeira « chasse à courre » à la française…

Na esquina do canal o miliciano espera o segundo moleque abrindo braços e pernas como o goleiro na hora do pênalti. A multidão  emudece de expectativa.  Num gesto brusco o motorista, que corre colado na traseira  do « meliante », avança a perna de capoeirista competente e desfere violento rabo-de-arraia nas canelas tísicas do velocista. O franguinho desequilibra, faz que cai mas não cai, bambeia mas se segura e, pedindo ajuda à Nossa Senhora d’Aparecida, ginga o corpo ensaboado de suor passando, liso como sabonete,  entre as pernas do policial, Garrinchinha brasileiro! que desaparece na mesma esquina do canal. O apontador do bicho não resiste e soca os céus num eufórico -puta-que-pariu!!-

Mas ainda restam dois, meu Deus!!, os dois mais miudinhos da rabeira, tentando escapar no labirinto do congestionamento.

-Tem mais dois!!,  aponta aos berros  a granfina. A multidão gira as cabeças numa coreografia de Rolland Garros…-Lá atrás, tem mais dois!!-, repete o circo romano, enquanto o guarda  recompoe-se do vexame da queda e tenta reassumir o controle da situação:- Pega, pega os ‘lazarento’, não deixa escapar!!

Minduin, sararazinho desdentado, sete aninhos de sobrevivência e sete vidas de exclusão,  entra zunindo  no curral estreito dos automóveis. Cercado, atira-se por debaixo do lotação e da’de cara, na calçada oposta, com Dentinho, o menorzinho de todos e unico branquela dos quatro que, sem mais forças pra correr, começa a chorar… um choro fundo, desesperado, o pavor estampado nos olhos miúdos de criança:

-…espera eu Minduim, espera eu, implora . Não me deixa eu aqui!!!…

Minduim, sensível ao choro do pequenino, vacila de solidariedade, atrasa o passo e estica a mão solidária, mas perde tempo precioso … O cerco se fecha, não há mais como escapar! Num último e desesperado recurso, atiram-se os dois filhinhos-de-Deus no canal da Visconde, acoutando-se sob a velha ponte de pedra. A cavalaria dos perseguidores, vitoriosa, em êxtasis, cerca e faz o paredão. Fim da linha! A andrajosa parelha entrega-se derrotada à agua putride, os ossos das costelas abrindo o fole da sanfona do peito como na agonia da consumpção. Dentinho chora convulsivamente, mas Minduim, medo e revolta destilados em surpreendente valentia, encara a multidão :

-Bate não, filha da puta- ameaça o pequenino, valente como um sagüi encurralado. -Tá me segurando por quê, filho da puta? Que foi que eu fiz?

-Roubou minha carteira-, grita espumando pelas ventas o motorista que, a muito custo, é contido em sua fúria pelo policial.

-Eu te roubei!? Eu não  roubei nada não!, urra o pequenino. Quem te roubou foi Tião, o negão qu’ocêis deixaram escapar. Eu num roubei ninguém, não!!-, repete, engrossando a voz ante o silêncio da platéia atônita. -Cadê, cadê tua carteira?, continua ele. Cadê? Comigo é que num tá! Olha aqui, pode ‘arrevistá’, grita o moleque, desvincilhando-se num tranco da própria camisa presa nas mãos do motorista. Olha ai,  eu num roubei nada não! Ta vendo? Eu tô limpo, limpo!!!!… e larga eu, filho-da-puta…

- Por que é então que  tu corria, pivete?- pergunta-lhe o policial… Quem não deve não teme!
O menino então, levantando o nariz e arfando o peito com a arrogância de um toureiro, olho no olho da multidão,  responde com voz surpreendentemente firme para a situação:
- Olha seu moço, eu corria porque hoje é domingo e tá na hora do jogo do meu Mengão. Por que, não se pode mais nem  ir ao futebol nessa cidade?!

E, tomando pela mão o menorzinho que, contagiado por sua valentia
controla o choro numa convulsiva crise de soluços, afasta-se lentamente da multidão paralizada, a quem dirige-se uma ultima vez, agora ja cioso dos seus direitos constitucionais:

- E não bate não, gente boa, não bate não que “nóis-é-di-menor”.

Antonio Veronese

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Sertanejos lideram arrecadação de direitos autorais de 2010

antonio veronese

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Sertanejos lideram arrecadação de direitos autorais de 2010

Ando com um banzo danado, saudades de um tempo feliz que ficou pra trás…”Rio que mora no mar, sorrio pro meu Rio que tem no seu mar, lindas flores que nascem morenas em jardins de sal”… Voilá, uma panfletagem estética definitiva do Rio , ……com um vanguardismo de Las Señoritas de la Calle d’Avingon e a leveza de um móbile de Calder”

Hoje dá uma tristeza danada ligar a tv e ver sempre aquela mesma porcaria multifacetada em funk, pagode ou, o que é ainda pior, nessa música neo-caipira de três compassos, com seu romantismo piegas e suas rimas de infinitivo. O povo gosta, dizem alguns . Gosta? Gosta nada!! O povo não tem é escolha, porque não tem acesso à cultura, porque não tem elementos de comparação, por que só conhece o sub-produto que lhe impõe a nossa televisãozinha de merda, vazia de valores e cheia de conceitos artificiais…
Li que a dupla Sandy e Junior gasta cinco milhões de reais somente em divulgação. Pois acredito que se dessem dez por cento dessa grana para divulgar Carlos Cachaça e Cartola eles venderiam mais do que essa dupla de adolescentes pós-caipira que, para a infelicidade geral da harmonia, confirma o ditado que diz que “filho de peixe, peixinho é”.

Pior ainda é o “esquemão” que se aproveita da omissão do Estado na exigência de contrapartidas estético-culturais nas concessões que faz de radio e televisão. Esquemão que fomenta a peita cumplicidade e provincianismo de programas como o de Faustão e Gugú que, com sua idolatria de chinfrins movidos a jabaculê, acabaram por nos impor essa porcariada toda.

- Desligue a tv, pôrra!, propõe-me um amigo.

- Mas de que adianta?- se sou perseguido por esse lixo sonoro que se dissemina como antraz onde quer que eu vá: no volume incivilizado da televisão do vizinho, no rádio mal sintonizado do táxi, no ”som-ambiente!?” do restaurante…

Sobrou-me apenas o toca-fitinhas do meu automóvel, último reduto prá satisfazer minha dependência crescente de doses massivas de Tom, Vinicius, Carlinhos Lyra, João Gilberto, Donato, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Johnny Alf, Nara, Silvinha…Uma turma da pesada que produziu a mais universal de todas as produções de Pindorama: a Bossa Nova!! Enquanto essa bossa esperta enche teatros no primeiro mundo, continuamos no Brasil ouvindo essa músiquinha burra, imposta pelas gravadoras burras, a um mercado cada vez mais burro. Sintomática desta burrice, que perpassa mesmo a « elite » brasileira, foi a atitude da “seleta?” platéia do Prêmio Multi-Show no Teatro Municipal, que se pôs em debandada assim que Bebel Gilberto iniciou sua apresentação.

Mas, nao se deixe contagiar pela minha nostalgia… talvez seja apenas saudade de um tempo feliz que ficou pra trás. Talvez seja só um pouquinho de tristeza por um país que, tão rico na música, insiste em chafurdar na mediocridade. .
Por isso ouso ainda ter esperança que o Brasil volte um dia a ser como há cinquenta anos atrás, quando já estávamos cem anos à frente de hoje em dia.

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Antonio Veronese

Tráfico no Leblon- O Globo

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Nesses tempos de desemprego e dificuldades, tive uma idéia que pode ser muito lucrativa: montar uma boca-de-fuma na Zona Sul do Rio de Janeiro. Não em cima do morro como como as outras mas aqui embaixo, ao rés do chão, numa rua nobre e de grande poder aquisitivo. Pode ser, por exemplo, na Carlos Góis no Leblon, naquele quarteirão entre a San Martin e a Ataulfo de Paiva. A presença dos cinemas e do Cliper garantem ali grande afluência de público. Lucro certo !! Uma vez definida a localização da nova « boca » o resto é fácil… nas duas esquinas vou postar homens armados de fuzis AR 15. Afinal, se o ponto é bom, é previsível que grupos rivais tentem dele se apoderar. Espalhados pela quadra atuarão meninos fogueteiros treinados para avisar quando chega a polícia.

Naquela pequena galeria comercial, nos fundos dos cinemas, vou instalar o depósito do pó, e na lojinha do lado, que não deve ter o ponto assim tão caro, vou montar o arsenal; armamento pesado para garantir a segurança da boca. Para distribuição vou cooptar meninos na faixa de oito a dezessete anos residentes na própria área. Eles podem ser facilmente localizados nas portas dos colégios Santo Agostinho e Saint Patrick’s. Serão treinados e armados, devendo obediência cega ao chefe que, neste caso, serei eu. Seus salários, vou assegurar, serão em muitas vezes maior que as mesadas que recebem dos pais; uma forma eficiente de transferir o pátrio poder para o chefe da boca, quer dizer, do negócio. Ali vou mandar eu, a ferro e fogo, eu o novo chefe da Carlos Góis ! Quem ousar desrespeitar minhas determinações será sumariamente eliminado. Como decorrência natural deste poder, terei acesso irrestrito a todas as mulheres do quarteirão, independentemente se são casadas, solteiras, menores ou virgens. Como contrapartida distribuirei dez por cento do lucro à comunidade, dedicando especial atenção aos doentes e velhos. Assistencialismo de ocasião! Se o pessoal do vigésimo terceiro Batalhão ameaçar atrapalhar o negócio, tentarei subornar seu comandante, transferindo trinta ou quarenta por cento do faturamento para engordar a parca folha de salários da tropa… Se esse tipo de negócio dá lucro em áreas miseráveis da cidade, imaginem no Leblon.Como ninguém pesou nisso antes?
Esse projeto mirabolante, é claro, é só uma provocação. Imaginem o primeiro telefonema que receberia a Polícia Militar, quinze minutos após o início das minhas «atividades» na Carlos Góis :« aqui é o doutor fulano de tal… estão vendendo drogana porta da minha casa e eu exijo Imediatamente uma providência ». Manchetes escandalosas dariam conta de que um grupo de traficantes teria cometido a suprema ousadia de instalar uma distribuição de entorpecentes em plena zona sul, no seio de uma comunidade respeitável onde mora só “gente de bem!”. Em menos de duas horas haveria uma verdadeira blitzkrieg: polícia civil, polícia militar, polícia federal e exército, devolvendo, rapidamente, a paz à nossa respeitável Carlos Góis. poupando suas crianças do trágico destino de se transformarem em “vapores do tráfico” ou engrossar a aviltante cifra de 600 meninos assassinados por ano somente na nossa ´cidade “maravilhosa”. Por fim, resta uma singela pergunta: e no Morro do Alemão, no Vidigal, na Rocinha, no São Carlos, no Dona Marta, no Esqueleto,na Mineira, na Maré,no Encantado, no Pavão Pavãozinho, no Canta-Galo e em tantos outros sítios urbanos com jurisdição própria, onde o Estado, covardemente, está ausente? Por que os humildes moradores dessas favelas -a honestíssima vovó que mora vizinha à boca-de-fumo e que vê seu neto ser cooptado pelo tráfico- não podem simplesmente chamar a polícia?
Se os senhores Governador e Ministro da Justiça quiserem eu posso fornecer-lhes Uma lista com os endereços de quarenta “bocas” onde, hoje à noite, o tráfico vai funcionar a céu aberto, com filas de usuários educadamente postados à espera do “atendimento”. Locais em que crianças estão sendo corrompidas, mulheres ameaçadas, em que vidas preciosas são perdidas, em que autoridades policiais são aliciadas, em que o negócio floresce sem os riscos da rua Carlos Góis no Leblon. O resto é conversa fiada e pose solene de candidato. Afinal, como ensinava Bertrand Russel, solenidade é, na maioria das vezes,somente um disfarce para a impostura.

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Faça Sua Parte, Companheiro!

Quando tudo acaba em pizza o que, concretamente, que você faz? Concretamente! Quantas vezes você fica puto e no dia seguinte toca a vida como se nada tivesse acontecido? Seja sincero: quantas vezes? Eu acho que chega uma hora em que a gente tem que encarar essa nossa passividade. Encarar essa nossa hipocrisia de nao reagir nunca, mas estar sempre “muito puto” com as falcatruas de Brasília, com a letargia do Judiciário, com a zorra dos hospitais, com a falência da escola pública, com a estupidez da polícia na sua relaçao com os pobres, com a imoralidade de 100.000 brasileiros ceifados por ano pela violência das armas e do trânsito… Chega uma hora de  acordar e saber que todos nós -portanto você também!- somos co-responsáveis pela zorra que virou nosso país. Por isso, esta’ na hora de parar de simplesmente dizer “isso é uma vergonha!” e ter a coragem de criar, você mesmo, vergonha na cara e partir pra briga… Afinal, quem manda aqui somos nós! Propostas concretas para que re-estabeleçamos neste país uma “liturgia da cidadania”: que tal invadirmos o Congresso Nacional cada vez que ali se faz uma patifaria? Invadir pacificamente, como homens de bem que somos, mas invadir mesmo!, mostrando, num corpo-a-corpo cívico, a nossa indignação mais profunda, o nosso direito à insolência cidadã quando a insolência maior for o desrespeito à causa pública. Que tal expor o político corrupto ou omisso, dentro do Parlamento onde muitas vezes se refugia, à lâmina cortante do nosso olhar vigilante? Sitiar o Parlamento, que é o foro máximo da democracia, com a “cara feia” do povo que, afinal de contas, é quem paga as contas da casa! Que tal deixar claro aos ladrões contumazes do dinheiro publico a nossa soberana indignaçao? … Apontar o dedo em praça pública na cara do corrupto notório que desdenha a Justiça e locupleta-se à sombra de nossa passividade? Que tal tocar a campainha na casa do juiz ladrão que dorme no apartamento desviado na super-faturação? Tocar a campainha sim, por que nao?, na casa do deputado pilantra que acumula contas no exterior e que, apesar delas, se fez eleger como o mais votado do país…? Sem violência, porque a nossa linguagem não há de ser a da covardia, mas sem condescendência!! Que tal exigirmos, na porta da casa do presidente da companhia aérea que é recordista de acidentes na história da aviação brasileira, que ele atenda à porta e venha sentir, na brasa do olhar cidadão, o drama  dos parentes das suas vítimas? … Tocar a campainha na porta do magistrado que finge que julga e liberta o assassino confesso e covarde, que mata pelas costas e toma sol à beira mar num escárnio à Justiça? Será bom mostrar, na sua cara, serenamente!!!, a força da nossa indignação vigilante.Que tal exigirmos, com voz de prisão se necessário, com ja fiz, que o comércio não ceda à ordem espuria de fechamento vinda de traficantes? Que tal observarmos rigorosamente! -e que seja esse um dever cidadão- os limites legais de velocidade, deixando clara nossa indignaçao, no ato do delito, ao pilantra que voa pelas madrugadas de Ipanema pondo em risco a vida de inocentes? Que tal um cerco cívico aos agressores contumazes, esses « machoes » que usam como argumento a força bruta e a pancadaria.Que tal ajudar a polícia com a denúncia certa, indicando nas altas da madrugada onde dorme bêbado o traficante que inferniza a comunidade durante o dia? Que tal anotarmos a placa do consumidor filhinho-de-papai que sobe o morro pra comprar cocaína, verdadeiro financiador da violência? Sem ter medo de sermos classificados de “alcaguetes” porque esse anacronismo, atropelado pela septicemía na violência, hoje serve à impunidade dos carrascos e desserve à segurança de inocentes. Que tal mostrar a quem não respeita a lei do silêncio, quem joga lixo nas ruas, quem desdenha sinal vermelho… enfim, à toda sorte de caricatos a quem a lei não sensibiliza nem intimida, que eles estão sitiados pelo exército da cidadania, essa força vigilante e legitima a serviço do respeitar e do fazer respeitar a lei?  É fácil fingir indignação e fazer de conta que estamos revoltados. Colocar a culpa somente nos políticos, é fácil! Mas os políticos são somente um sintoma da sociedade acovardada em que nós nos transformamos. Difícil, mas não impossível, é transformá-la.
Faça a sua parte, companheiro!

antonio veronese

Antonio Veronese
REFERENDUN VENDA DE ARMAS DE FOGO NO BRASIL

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Ganhou o olho por olho…

Sobre o resultado do referendo sobre venda de Armas de Fogo no Brasil-

Outubro 2005

Ganhou o olho por olho, o dente por dente. Ganhou o direito de combater a violência com a violência. Ganhou a possibilidade de sujar as mãos de sangue, como os algozes. Ganhou a mentalidade tosca, anti-republicana, que defende que -uma vez ineficiente a polícia- deva a sociedade ela mesma agir no seu policiamento.

Venceu o raciocínio simplório de que armas de fogo são essenciais à segurança dos cidadãos, ainda que, armada até os dentes, nossa sociedade não consiga livrar-se do vergonhoso recorde mundial de assassinatos, em números proporcionais e absolutos. Num país onde 12 pessoas são assassinadas a cada hora, ganhou o direito de continuar matando! Os brasileiros exigem, como John Wayne, um coldre com um 45 na cintura, o que permitirá ao Brasil do século XXI “ascender” ao nível civilizatório do oeste americano do século XVII.

Estou profundamente decepcionado com o resultado. Que oportunidade perdemos!!! A proibição das armas não seria, evidentemente, a solução de todos nossos problemas, mas proporia um novo tempo, uma nova mentalidade para as gerações futuras. Crianças a serem formadas com o novo valor, firmado pela lei e pela escola, de que a arma de fogo fôra um objeto do passado, da brutalização nas relações humanas.
antonio veronese

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Lula apertando a mão de Maluf é Lula apertando a
mão das nossas históricas endemias, dos nossos aleijões morais,
do nosso funesto passado de republiqueta de bananas.
Quando vejo Lula apertando a mão de Maluf,
tenho uma vontade cívica de apertar a goela de Lula.

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RIO + 20, A SOLENIDADE CONTINUA A SER O DISFARCE PERFEITO PARA A IMPOSTURA.

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O desvario da barragem de Belo Monte ficou fora da agenda do Rio+20. Propus um bloqueio aos hoteis que hospedavam os 20 senhores do mundo, para manifestar nossa decepçao. Fui acusado de incitar a desordem. Ha desordem maior do que deflagrar tamanho impacto ambiental no seio da maior reserva de bio diversidade do planeta?

Um pais que não respeita seu patrimônio natural não tem legitimidade pra ser o forum mundial do debate ecológico! Cento e oitenta paises representados, viagens caras, avioes poluentes, cinismo institucionalizado e, como resultado concreto, nada!!! A solenidade continua a ser o disfarce perfeito para a impostura.

antonioveronese

http://recherche.lefigaro.fr/recherche/access/lefigaro_fr.phparchive=BszTm8dCk78Jk8uwiNq9T8CoS9GECSHiKEu2xvmp

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http://www.google.fr/search?hl=fr&source=hp&q=antonio+veronese&btnG=Recherche+Google&meta=&aq=f&oq=

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